Sobre a importância da assertividade do diagnóstico de autismo

Imagem representativa para o Transtorno do Espectro Autista

O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um dos temas mais delicados da psiquiatria contemporânea. Um diagnóstico impreciso — seja por excesso, seja por falta — pode custar anos de suporte inadequado ou rotular alguém de forma equivocada. Neste artigo, explicamos por que a assertividade no diagnóstico de TEA importa tanto, quais desafios os profissionais enfrentam e o que uma avaliação completa precisa considerar.

O que caracteriza o Transtorno do Espectro Autista

O TEA representa um dos maiores desafios na prática da saúde mental contemporânea. Caracterizado genericamente por déficits persistentes na comunicação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, o TEA é concebido como um espectro amplo e heterogêneo, conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). De modo similar, também está presente no Código Internacional de Doenças (CID-11), mais usado em contextos legais no Brasil. Essa concepção espectral implica variabilidade fenotípica significativa — desde casos leves com alto funcionamento cognitivo até formas graves que demandam suporte intensivo ao longo da vida.

Por que o diagnóstico é tão desafiador

Uma das principais dificuldades está na sobreposição sintomática com outras condições, como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), transtorno de ansiedade social, déficit intelectual ou transtorno de processamento sensorial. Psiquiatras, psicólogos e neurologistas enfrentam com frequência o risco de subdiagnóstico em meninas e adultos — grupos historicamente sub-representados em estudos — ou de superdiagnóstico em crianças com peculiaridades desenvolvimentais transitórias.

No Brasil, dados do Censo Escolar (2022) indicam que cerca de 1 em cada 59 crianças é identificada com TEA, mas especialistas estimam subnotificação devido à escassez de serviços especializados e à formação inadequada de parte dos profissionais.

Os riscos de um diagnóstico impreciso

A assertividade diagnóstica é imprescindível para garantir intervenções precoces e personalizadas, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) ou terapias integrativas, que maximizam o potencial de autonomia do indivíduo. Erros diagnósticos podem privar a pessoa de suporte adequado ou expô-la a tratamentos ineficazes — o que pode perpetuar estigma social ou comprometer seu desenvolvimento.

O cuidado necessário com rótulos

O cuidado com rótulos é ético e científico: o TEA não define a identidade de uma pessoa, mas descreve uma forma de neurodiversidade. Rótulos reducionistas, como “autista de alto funcionamento” (termo já obsoleto após o DSM-5), ignoram a variabilidade do espectro e fomentam preconceitos, além de violar princípios bioéticos básicos.

Como funciona uma avaliação multidisciplinar completa

Outros aspectos relevantes incluem a influência cultural no diagnóstico — em contextos brasileiros, traços como timidez podem ser confundidos com introversão cultural — e a necessidade de avaliações multidisciplinares, que podem envolver fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e geneticistas, já que comorbidades genéticas (como a síndrome do X frágil) ocorrem em até 20% dos casos. A formação continuada dos profissionais é crucial para priorizar ferramentas validadas como o ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule) e o ADI-R (Autism Diagnostic Interview-Revised) no acompanhamento de pessoas diagnosticadas com TEA.

O compromisso da Fanon com o diagnóstico assertivo

Em síntese, o diagnóstico do TEA exige rigor científico, sensibilidade ética e uma abordagem integrada, capaz de reconhecer o espectro como uma continuidade de neurotipos — e não como uma lista fechada de sintomas. Investir em capacitação e pesquisa é imperativo para superar barreiras e promover inclusão genuína. É esse compromisso que orienta o dia a dia dos profissionais da Fanon Psiquiatria, que compreendem a necessidade contínua de formação e o respeito inegociável pelas pessoas atendidas. Se você suspeita de TEA em você ou em alguém da família, conheça o atendimento especializado em TEA da Fanon.

Perguntas frequentes sobre diagnóstico de TEA

Por que o TEA costuma ser subdiagnosticado em meninas e mulheres?
Meninas e mulheres tendem a desenvolver estratégias de mascaramento social que imitam o comportamento neurotípico, o que dificulta a identificação de traços do espectro pelos instrumentos tradicionais. Isso faz com que o diagnóstico, quando ocorre, costume vir mais tarde.
O que é superdiagnóstico e por que ele também é um problema?
É quando características desenvolvimentais transitórias, comuns em certas fases da infância, são interpretadas como TEA sem uma avaliação criteriosa. Isso pode levar a intervenções desnecessárias e a um rótulo que não corresponde à realidade da criança.
Quais instrumentos os profissionais usam para confirmar o diagnóstico?
Os principais são o ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule) e o ADI-R (Autism Diagnostic Interview-Revised), sempre combinados com entrevista clínica detalhada e histórico de desenvolvimento — não existe exame de sangue ou imagem que confirme o TEA sozinho.
TEA e TDAH podem ser confundidos no diagnóstico?
Sim. Os dois quadros compartilham sintomas como dificuldade de atenção e desregulação sensorial, e é comum que coexistam na mesma pessoa. Por isso a avaliação precisa mapear ambos antes de qualquer conclusão.
Por que o termo “autista de alto funcionamento” caiu em desuso?
Porque reduz uma condição em espectro a uma única dimensão (funcionamento cognitivo), ignorando as múltiplas formas como o TEA pode se manifestar. Desde o DSM-5, prefere-se descrever os níveis de suporte necessários em cada área específica.

Referências

  1. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  2. BRASIL. Ministério da Educação. Censo Escolar 2022: relatório de resultados. Brasília: INEP, 2023.
  3. LORD, C. et al. Autism Diagnostic Observation Schedule, Second Edition (ADOS-2). Los Angeles: Western Psychological Services, 2012.
  4. RUTTER, M.; LORD, C.; GOUGE, A. Autism Diagnostic Interview-Revised (ADI-R). Los Angeles: Western Psychological Services, 2003.
  5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems (ICD). WHO, 2024.
Dr. Hugo Salmen

Revisado por

Dr. Hugo Salmen

Psiquiatra · CRM-MG 116160 / RQE 71979 · Fundador da Fanon Psiquiatria & Humanidades. Residência no Instituto Philippe Pinel (RJ).

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