O ser humano é uma espécie social e gregária, por isso depende de diversos modos de uma rede coesa de relações comunitárias para ter qualidade de vida, para se regular socialmente, em última instância, para sobreviver. A solidão no século XXI é um tema que tem mobilizado filósofos, sociólogos, psicólogos, antropólogos e artistas, pois está associada a transformações sociais, tecnológicas e culturais da Contemporaneidade que têm mudado veloz e intensamente as relações sociais, interpessoais e dos indivíduos consigo mesmos.
A solidão tornou-se, nesse contexto, um problema de saúde pública reconhecido por diversos governos, pesquisadores e instituições e com diversas implicações coletivas e individuais. É notório e amplamente comprovado cientificamente que a solidão faz mal à saúde, pois, segundo recente estudo da Universidade de Cambridge, essa condição foi associada com doenças cardíacas, AVC, diabetes tipo 2 e imunidade baixa. Há ainda evidências cada vez mais concretas de que a solidão pode favorecer o desenvolvimento de condições de demência, de depressão, de transtornos de ansiedade, etc. Além disso, idosos, imigrantes, minorias étnicas, refugiados, pessoas da comunidade LGBTQ+, cuidadores e pessoas com condições de saúde crônicas são mais suscetíveis a sofrer de solidão.
Desse modo, viver no século XXI significa, como nunca, para muitos, sobreviver a um paradoxo: estamos hiperconectados, mas profundamente sós. Em redes sociais, aplicativos e ambientes de trabalho marcados pela lógica do desempenho e da comparação, a presença dos outros multiplica-se em notificações em nossos celulares, mas raramente se traduz em vínculos que sustentem a experiência de estar com alguém de modo significativo. Essa contradição ajuda a explicar por que a solidão é descrita, cada vez mais intensamente, como questão de saúde pública, como definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2023. Isso porque muitos estudos em diversos países associam isolamento social, falta de rede de apoio e sensação de desconexão humana a risco aumentado de depressão, doenças cardiovasculares, declínio cognitivo e mortalidade precoce.
A dificuldade em estabelecer relações interpessoais saudáveis não nasce apenas de “falhas individuais”, mas majoritariamente por questões estruturais, já que, desde a origem da espécie humana até aproximadamente o fim do século XX, fomos uma espécie interessada na vida coletiva e interessada em construir relações e fazer parte de coletivos mesmo que por razões pragmáticas. Em um contexto que exalta o individualismo e a virtualidade, em especial a partir da década de 2010 com a popularização do “smartphone”, o sujeito passou a ser convocado repetidamente a ser “empreendedor de si mesmo”, isto é, responsável sozinho por seu sucesso ou fracasso. Como observou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a modernidade líquida substitui projetos coletivos por trajetórias privadas e voláteis, nas quais laços afetivos tendem a ser fugazes e facilmente revogáveis. Isso favorece relações vistas como investimentos, ou seja, o outro importa enquanto oferece validação, “status” ou utilidade. Nesse contexto, tendemos ao afastamento e à desconexão quando o vínculo exige paciência, elaboração de conflitos, compromisso constante e cuidado cotidiano. A consequência subjetiva disso é um medo persistente de não ser suficiente e de ser descartado, o que alimenta tanto o escapismo ou solidão quanto a dependência afetiva.
Ao mesmo tempo, a sociedade do cansaço descrita pelo filosofo sul-coreano Byung-Chul Han transforma cada um em gerente de sua própria performance. A autoexploração – trabalhar demais, exibir produtividade, otimizar cada minuto – rouba o tempo necessário para construir intimidade: amizade, amor, cuidado, pois todos requerem disponibilidade emocional, disposição para compreender falhas, apreço por intervalos não produtivos, etc. A solidão, nesse cenário, não é apenas ausência de pessoas, mas resultado de um modo de vida que reduz o outro a recurso ou audiência.
Contudo, distinguir solidão de solitude é fundamental, pois solidão é comumente vista como desconexão dolorosa, sensação de não pertencimento mesmo em ambientes cheios ou em metrópoles e carência de vínculos confiáveis. Por outro lado, a solitude é o estar só por escolha, é um tempo de recolhimento que permite descanso mental, autoconhecimento e reorganização emocional. Longe de ser patológica ou preocupante, a solitude pode fortalecer a autonomia afetiva e tornar relações interpessoais mais livres e leves, menos pautadas pela necessidade da presença constante e mais equilibradas. Em um mundo saturado de estímulos, momentos escolhidos de silêncio e introspecção protegem contra o esgotamento, promovem saúde mental e ampliam nossa capacidade de escutar e ser escutado.
Enfrentar os impactos da solidão na vida contemporânea implica, portanto, mais do que prescrever “mais socialização” ou “mais produtividade emocional”. Significa questionar modelos de sucesso baseados em competição permanente, revalorizar experiências coletivas não utilitárias (festas, comunidades, grupos de apoio, participação cívica, etc.) e reconhecer a importância de políticas públicas que criem condições para que as pessoas possam tecer laços duradouros.
Entre ruído e silêncio, o desafio é aprender a cultivar uma solitude fecunda sem naturalizar uma solidão que adoece. Além disso, é imprescindível reconstruir formas de convivência em que estar com os outros não seja mais uma fonte de desempenho, mas de cuidado e prazer mútuos.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
PUTNAM, Robert D. Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. New York: Simon & Schuster, 2000.
ACADEMIAS NACIONAIS DE CIÊNCIAS, ENGENHARIA E MEDICINA (EUA). Social Isolation and Loneliness in Older Adults: Opportunities for the Health Care System. Washington, DC: National Academies Press, 2020.
CARDOSO, Karla. Solidão x solitude: suas diferenças e impactos na saúde mental. 2025. Disponível em: https://psicologakarlacardozo.com.br/blog/solidao-x-solitude-suas-diferencas-e-impactos-na-saude-mental/. Acesso em: 14 mar. 2026.